Nathalia Timberg passou a maior parte da vida nos palcos e estúdios de televisão. Lá se vão 54 anos de teatro e 52 nas telinhas. Em todo este tempo foram dezenas de personagens, desde vilãs enfurecidas a mulheres meigas e sensíveis. Todas com a marca do talento que a consagrou como uma das maiores atrizes brasileiras.
Mais recentemente, em turnê pelo Brasil com a peça A Graça da Vida, ela recebeu a equipe do Meia Fina para um bate-papo. A conversa foi no próprio camarim da atriz, que 3 horas antes do espetáculo, já inicia os preparativos para subir ao palco.
Meia Fina: É costume chegar cedo ao teatro?
Nathalia Timberg: Sempre. Eu faço meu próprio cabelo e maquiagem. Tenho que deixar tudo certinho porque preciso, nesta peça, trocar de roupa e peruca em segundos. Chegar antes e começar a se arrumar já faz parte da concentração do ator. Ele vai despindo a sua proteção urbana e vai entrando no universo que ele precisa. É como um músico que afina o instrumento antes da apresentação... faz parte do trabalho.
MF: Como a senhora trabalha esta transformação da Nathalia para o personagem?
NT: Não é a Natalia que vai entrar ali, a Natalia tem que ficar no camarim. Eu uso do meu rosto para certos personagens. Tem atores que trabalham a transfiguração, que é o meu caso, e os que trazem a si os personagens. São dois tipos de abordagens. Tem atores que tem esta coisa de trazer a si que são geniais. Mas todos somos artistas que se usam como instrumento, é algo difícil.
MF: A peça “A Graça da Vida” trata da relação mãe e filha e ainda envolve a doença de Mal de Alzheimer. Como o publico reagiu a esta história?
NT:As pessoas reagem muito bem. A platéia é constituída por mães e filhos. Quantas peças eu já fiz que abordam esta relação, quer dizer, é uma relação complexa. Nem que seja por causa da geração. O Mal de Alzeihmer entra como um fator de impacto determinante, que leva as pessoas que tem uma relação conflitante a rever suas relações. Quando você passa a entender que é você que tem que entender seus pais, você amadureceu. Porque você foi adiante... Hoje em dia as pessoas estão vivendo mais, então evidentemente certas coisas estão mais em pauta do que antes. Mal de Alzheimer virou uma espécie de genérico para várias senilidades. Mas tudo é tratado com muito humor na peça, o que faz com que as pessoas saiam otimistas. Eu gosto.
MF: E qual é a sua opinião sobre este tipo de comédia?
NT: Nós não podemos confundir a comédia com pastelão. Quando as pessoas têm uma reação um pouco cética com isso, eu lembro dos fimes do Chaplin, quer algo mais humano do que isso? A comédia marca mais profundamente do que dramalhão. Um registro de humor é geralmente critico. Rir de si mesmo é uma forma muito inteligente.
MF: A impressão que temos é que o número de pessoas que vem ao teatro diminuiu. É verdade?
NT: Diminuiu muito. Antigamente você fazia teatro de segunda a domingo. Em alguns dias fazia mais de duas apresentações. Agora virou evento de fim de semana. Isto esta relacionado à formação que está cada vez mais deficiente. A qualidade daquilo que as pessoas procuram esta mais primária. E quanto mais pobre é uma formação, mais questionável é o seu gosto. Quando você quer saber como foi uma época, você vê a arte que ela produz. E como hoje em dia você não tem um estado que se ocupe do que deveria se ocupar, todas as atividades tem que sobreviver. A cultura ainda tem demanda, não sei por quanto tempo.
MF: Este desinteresse não teria relação com a rapidez da informação e por ela ser mais descartável? Como a senhora assiste a esta evolução da tecnologia?
NT: A parte técnica evoluiu e a intelectual não acompanhou. A internet que poderia ser uma ferramenta maravilhosa, muitas vezes não é. O estudante não pesquisa mais, não procura mais nos livros, ele vai lá copia e entrega o trabalho. A grande praga foi a apostila, porque a pesquisa desapareceu. A escola até a universidade, por exemplo, existe para orientar tua pesquisa pessoal. Alguém que hoje em dia tenha esse tipo de interesse chega a ser ridicularizado na frente dos outros
MF:Nathalia Timberg, a senhora é considerada uma das melhores atrizes brasileiras, ganhou diversos premios, interpretou dezenas de personagens, existe algum sonho a ser realizado?
NT: Todos. Para mim, a partir da medida que você caminha, o horizonte também caminha. Não tenho o desejo de fazer algum personagem específico... eu tenho todos os desejos.
* com a participação de Julia Dely
Confira os papéis de Nathalia Timberg:
Na televisão
2008 - Queridos Amigos - Dona Ester
2006/2007 - Páginas da Vida - Hortênsia
2006 - JK - Baronesa do Tibagi
2003/2004 - Celebridade - Yolanda Mendes
2002 - O Quinto dos Infernos - Xuxu
2001 - Porto dos Milagres- Ondina
2000 - Marcas da Paixão - Marrita (Rede Record)
1999/2000 - Força de Um Desejo - Idalina Menezes de Albuquerque da Silveira
1997/1998 - Zazá - Teresa
1996 - O Campeão- Mãezinha (Rede Bandeirantes)
1994 - Éramos Seis- Emília (SBT)
1993 - Mulheres de Areia - Juíza
1992/1993 - De Corpo e Alma - Nárjila Pastore
1991/1992 - O Dono do Mundo- Constância Eugênia
1990 - Desejo - Túlia
1990 - Pantanal- Mariana (Rede Manchete)
1988/1989 - Vale Tudo - Celina Junqueira
1987 - Corpo Santo - Maria (Rede Manchete)
1986 - Novo Amor - Lígia (Rede Manchete)
1985/1986 - Ti Ti T- Cecília
1984 - Santa Marta Fabril S.A. - Marta (Rede Manchete)
1984 - Meu Destino É Pecar- Consuelo
1982 - Elas por Elas - Eva
1982 - O Pátio das Donzelas (TV Cultura)
1982 - Maria Stuart - Elizabeth (TV Cultura)
1979 - Cara a Cara - Renée (Rede Bandeirantes)
1978 - A Sucessora - Juliana
1977 - O Espantalho - Corina (TV Record/TVS)
1975 - Escalada - Fernanda Soares
1973 - As Divinas e Maravilhosas - Aidée (TV Tupi)
1973 - Rosa dos Ventos - Eleonora (TV Tupi)
1972 - Quero Viver - Júlia (TV Record)
1971 - Quarenta Anos Depois - Cândida (TV Record)
1971 - Editora Mayo, Bom Dia - Maria do Carmo (TV Record)
1970 - As Bruxas - Bagmor / Olívia (TV Tupi)
1969 - Dez Vidas - Bárbara Heliodora (TV Excelsior)
1969 - Vidas em Conflito - Cláudia (TV Excelsior)
1969 - Sangue do meu sangue - Sarah Bernhardt (TV Excelsior)
1968 - A Muralha - Basília (TV Excelsior)
1968 - O Terceiro Pecado - A Morte (TV Excelsior)
1967 - A Rainha Louca - Imperatriz Charlotte
1966 - A Ré Misteriosa - Elisa (TV Tupi)
1964 - Um Rosto de Mulher - Elisa
1964 - O Direito de Nascer - Maria Helena (TV Tupi)
1964 - Coração (TV Rio)
1964 - Imitação da Vida (TV Rio)
1964 - O Desconhecido -Norma (TV Rio)
No teatro
A Graça da Vida -2007
Off -2006
Melanie Klein -2004 (Melanie Klein)
A Importância de ser Fiel - 2003/2004 (Lady Bracknell)
Letti e Lotte -2002
Conduzindo Miss Daisy -2001 (Miss Daisy)
Meu Querido Mentiroso- 1999 (Beatrice Stella Campbell)
No Fundo do Lago Escuro -1997
Paixão -2004
Três Mulheres Altas -1993
Viagem a Forli -1993
O Jardim das Cerejeiras -1989 (Madame Lhuba Ravenskaia)
Filumena Marturano -1989 (Filumena Marturano)
Meu Querido Mentiroso- 1988 (Beatrice Stella Campbell)- Moliére de Melhor Atriz
A Cerimônia do Adeus -1987 (Simone de Beauvoir)- Mambembe de Melhor Atriz Coadjuvante
Assim é (Se lhe Parece) -1984 (Senhora Flora)
Ensina-me a Viver -1982
Longa Jornada Noite a Dentro -1980 (Mary Cavan Tyrone)
Investigação na Classe Dominante -1979
A Morte do Caixeiro Viajante -1977 (Linda Loman)
Entre Quatro Paredes -1974 (Inês Serrano)
Os Amantes de Viorne -1972 (Clara Lannes)
Os Ciúmes de um Pedestre -1970
Meu Querido Mentiroso- 1965 (Beatrice Stella Campbell)- Moliére de Melhor Atriz
Antígona -1964 (Antígona)
Le Fantôme de Marseille -1962
A Escada -1961 (Helena Fausta)
Almas Mortas -1961
Um Gosto de Mel- 1960 (Helena)
O Pagador de Promessas -1960 (Rosa)
O Anjo de Pedra -1959/1960 (Alma Winemiller)
Panaroma Visto da Ponte -1958
Rua São Luiz 27 8º Andar -1957
A Casa de Chá do Luar de Agosto -1956
As Solteiras Casadas -1955
Os Cinco Fugitivos do Juízo Final -1954
Senhora dos afogados - 1954 (Eduarda Drummond)
O Pai -1950

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Natália, a televisão brasileira não vive sem o seu talento; sem o seu carisma. Te adoro. Gostaria de bater um papo. Tenho muito a aprender. Aguardo contato: fjohnlima@bol.com
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